Viagem

Viagem

terça-feira, 27 de julho de 2010

Desenhar palavras: contando histórias em italiano!

Sou contadora de histórias como já deve ter dado para perceber...

Aqui estão as fotos da apresentação que fizemos da Caixa de Fuxico em Milão na festa " Il Battito della Terra" festa de solstício de verão da Associação Íris do Imaginário, criada pelo grupo de pesquisa de Pedagogia Immaginale (http://www.immaginale.it/) um instituto de pesquisa simbólica e do imaginário que promove encontros, cursos, palestras e atividades artísticas que tenham características "immaginale". O grupo criado pelo Prof. Paolo Mottana, é formado por Francesca Antonacci, Marina Barioglio, Fabio Botto, Giovanni Rizzo e Raul Citterio e faz parte da linha de pesquisa hermenêutica dentro da Facoltà Scienze della Formazione dell'Università degli Studi di Milano Bicocca (http://www.unimib.it)/
Na maior das encruzilhadas vim parar em um centro, em um coração teórico e poético da minha pesquisa. Juro que foi sem querer e que meu orientador (Marcos Ferreira Santos) quase me obrigou!!! Porque eu pensava em ir pro Sul da Itália, unir o útil ao agradável, estar próxima das tradições culturais, do mar...Mas esse tem sido dos mais férteis encontros no qual fui acolhida e com o qual me identifiquei muito.
Como já tinha falado aqui meu projeto previa contar histórias. Procurei contadores de histórias em Milão. No grupo de pesquisa Pedagogia Immaginale expliquei o que são os contadores de histórias, me diziam que se chamavam "'cantastorie" outros diziam "'racantastorie", ou ainda "racontastorie", não consegui ainda conhecer nenhum, estão no Sul da Itália me disseram. E em uma das primeiras reuniões estavam organizando a festa e procuravam uma apresentação artística e Paolo sugeriu que fosse eu. Hoje em dia eu sou assim: aceitei o convite na hora, expliquei como era prá todos na reunião e ainda pedi  prá trazer a Estela que estava na Suíça na casa de uma amiga.

Viemos de caso pensado, trouxemos os instrumentos e Estela tinha se preparado porque nessa história Marcos Coin e Marina Donati, da Caixa de Fuxico é que fazem a música. Procurei lugares para apresentações em Milão. No Ibrit, no Consulado Brasileiro e no Arci mas quando cheguei aqui a programação já estava fechada e recomeça só em setembro, depois das férias de verão daqui. Essa é uma característica muito forte da programação porque as estações definem o ritmo da vida das pessoas e são muito claros, ordeiros, muito organizados mesmo nesse sentido.
Mas para decidir qual história contar fiquei em dúvida, tinha uma responsabilidade grande, de, quem sabe, mostrar um lado desconhecido da cultura brasileira: os côcos, as cirandas e as histórias tradicionais, os contos populares do Brasil, explorando possibilidades de sair do esteriótipo do Brasil tipo exportação com samba e mulatas, Chico e Caetano, Vinícius e Toquinho. E ainda de "apresentar" a proposta de um contador de histórias contemporâneo!

Foi uma delícia apesar de difícil e do nervoso né! Em italiano o ritmo caiu muito e tive que usar todas as técnicas que nesse longo caminho aprendi com Regina Machado, com o grupo de estudos do Boca do Céu, com as oficinas e a experiência de contar histórias já há dez anos.
E ainda da observação de outros contadores de histórias, como o Sean Taylor que é um dos meus preferidos. Até pedi a ele uma história escocesa muito linda mas...
Contamos a história A Banda da Coroa, recolhida por Câmara Cascudo. Traduzi para o italiano. Adele Desideri me ajudou na tradução mas, mesmo assim, na hora me vinham as imagens. As palavras com verbos no passado remoto em italiano são pouco usadas, não eram corretas,  mas é preciso acolher o instante, focar na presença e permitir que as imagens ganhem vida através das palavras seja lá como for...
E conseguimos ainda fazer todo mundo dançar ciranda como parte da história, " o baile do casamento" e depois ainda fizemos Toc Patoc...
Talvez tenham sido apenas gentis e educados, os italianos normalmente são assim (exceto os que trabalham na Questura di Milano)  mas de verdade pareceu que foi um sucesso, que ficaram entusiasmados com a história feita com música ao vivo. Os mais intelectuais buscavam os símbolos, outros, que estão fazendo o curso de especialização em Pedagogia do Imaginário contavam da experiência de conseguir "ver" as imagens. E prá um contador de histórias que conta em outro língua essa é a recompensa de seu esforço!
E fazer os italianos dançarem é sempre difícil, têm uma cultura do corpo muito diferente da nossa mas como resistir às belas cirandas que Estela lindamente cantou e tocou?
E se a corda do violão que o Fábio Botto, meu colega doutorando, emprestou não tivesse quebrado estaríamos dançando até hoje!

Um comentário:

  1. me fizeste lembrar de um concerto da gal costa cantando "vapor barato" (1973 eu acho...) quando quebrou a corda... e mesmo assim... até hoje é antológica a sua interpretação !
    eu diria o mesmo de teu feito em terras milanesas... as fotos dizem muito do nosso estilo tropical (como diria a Danielle Perin, "nada ocidental") contagiando tutti...
    parabéns...
    me sinto ainda mais orgulhoso !
    bacci
    marcos

    ResponderExcluir