Viagem

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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Desenhar palavras: nas terras de Odin - Parte 1

Chegada!
 Já disse aqui que fazia parte do meu projeto para a Bolsa Sanduíche ir para a Dinamarca e conhecer a sede do Odin Theatret, grupo liderado por Eugenio Barba. Mas não tinha a menor idéia de como iria fazer isso! E foi a mais profunda das aventuras!

No período em que estiveram em Milão, divulgaram a Odin Week Festival. Me inscrevi. Coincidentemente seria em agosto, período em que a Università degli Studi di Milano Bicocca, onde fiz meu período sanduíche, estaria de férias. Fui selecionada. Com meu parco cofrinho de economias e o generoso empréstimo de um amigo paguei o curso em euros !! Quem tem amigos queridos tem tudo!

Mas a Dinamarca... Eu não sabia que era tão longe! Lá faz frio no verão! Para chegar até a cidade de Holstebro, onde fica a sede do grupo, peguei um vôo de Firenze até Copenhagem, com escala em Zurique, era o jeito mais barato, esperei 5 horas no aeroporto para o horário do trem até Fredericia, depois até Herming e de lá um ônibus até Holstebro. Fiquei no Danshostel, (o melhor hostel que fiquei) porque não tinha vôos e horários que dessem prá chegar no dia do início do curso. Assustada com a Dinamarca, me sentindo infeliz com o frio, praticamente com a mala que tinha ido prá Sardenha ( tipo assim: biquíni, chapéu, protetor solar, shorts e dois moletons de ensaio) estranhando a comida, desenferrujando meu inglês, fazendo contas de euros para coroas dinamarquesas e quase tendo um infarto com o preços, fiquei um dia e meio até conhecer meus primeiros colegas de Odin Week: Anna e Lúcio: brasileiros e Luz, que é colombiana.

Os encontros foram muitos. São quase 60 pessoas de várias partes do mundo: Islândia, Tailândia, Colômbia, México, Canadá, Inglaterra, Itália, argentina, França, Bélgica, Estônia, Turquia, Dinamarca, Romênia, Espanha, Egito, Coréia do Sul, Peru, Estados Unidos e Brasil.

Todos nós!
De 12 a 21 de agosto ficamos juntos na sede do Odin que tem alojamentos. Sensíveis e delicados prepararam o espaço com delicadeza para nos receber, flores na mesa de refeições e enfeites nas árvores da entrada.

A programação foi muito intensa,  encontros com Eugenio Barba de uma hora todos os dias, trainings com os atores, vídeos, demonstrações de trabalho, espetáculos todas as noites. No segundo dia, no training com Augusto Omolú, machuquei feio um dedo do pé do tipo acho mesmo que luxou ou quebrou...Zica! Nem é a primeira vez, tenho o pé direito meio já mal tratado. Fiquei um pouco triste, mas segui em diante, a minha lida é essa, dureza conseguir fazer teatro!

Fiquei cansadíssima! Curso em inglês. Sensível e mexida com os espetáculos, com a história do grupo e com muitas imagens que me apareciam tentando lembrar de onde conheci o Odin ou ouvi falar deles a primeira vez. A pergunta que Eugenio nos fez no primeiro dia.


Uma foto "roubada" durante o training com Roberta Carreri.

Vivia ali momentos de transformação tão profundos e intensos que ainda estou completamente envolvida com essa experiência.

Quem é Eugenio Barba? A palavra generosidade o define bastante bem.

E eu que imaginava poder pesquisar enquanto estaria lá...Mas mal dava tempo de ir ao banheiro, de conversar com pessoas interessantes e participar das festas!

Acordávamos todos os dias as 6:45 para tomar café e como as tarefas eram divididas quem tinha que preparar o café tinha que acordar antes ainda. O pessoal corria com o Kay e eu não pude já expliquei porquê! Aff...

Mas consegui visitar o Samarkand (CTLS) num dos períodos em que fiquei um pouquinho de molho, e lá fui super bem recebida pela Valentina e pela Francesca. Eles são assim super generosos e compartilham mesmo o acervo.
Centro de estudos para teatros laboratórios Odin, Living Theather e Grotowiski

Da minha cabeça não saem palavras de Eugenio sobre a história do Odin; a discussão dele com Tag Larsen; o vídeo dele recebendo o prêmio em Cuba e com força desfazendo o ramalhete de flores que lhe deram para depois entregar, com os olhos brilhantes, uma parte para cada um dos atores e atrizes do grupo; Roberta Carreri na demonstração de trabalho sobre “Casa das Bonecas” que fazia com Torgeir Wethal, seu companheiro, falecido há um mês e o passarinho que entrou no teatro e parecia entender o que ela dizia, os pássaros são o símbolo da alma humana eu pensava e aquilo que poderia parecer uma coincidência era para mim, na verdade, a profunda comunicação ritualizada daquele espaço sagrado e sobre esse episódio tão delicado tem o artigo do jornalista Carlos Gil http://www.artezblai.com/ ; o espetáculo “Ode to progress”, “Itsi Bitsi”, o “Orô de Othelo” com Augusto Omolú e “En esqueleto de la ballena”, no qual achei que iria ter um treco! Via coisas, sentia um abismo abrindo em mim, descobri mais sobre mim naquele momento do que em anos de terapia...;Ah! Mas e “O livro de Ester”... A delicadeza como nunca antes eu vi...;E Elsie Marie? Ela ao encontro dela mesma na foto...; E o sensível projeto Madalena da Julia Varley e suas criações com a Morte? E o que é uma produtora como a Anne Savage? E a emoção de dançar Oxum num ataque de banzo... Sem falar na cidade de Holstebro, na Dinamarca e no mar do norte...

Dias de se emocionar e muito. E de rir também, com meus colegas do mundo todo, na tentativa de nos comunicarmos em inglês, italiano e espanhol.

E ainda de pensar:  no jeito que tenho feito teatro e de como são os modos de produzir teatro no Brasil. Que triste constatação, quanto abandono! Como somos fortes, incríveis: heróis, essa gente do teatro!

Além das muitas experiências, eu trouxe duas pedrinhas do mar do norte que é prá ajudar a continuar a construir o meu desejo de fazer teatro.
Olho prá elas agora e peço aos deuses do teatro que não me deixem esquecer a lição fundamental de Eugênio Barba e seu grupo: que somos nós quem construímos nossos caminhos acreditando no que fazemos, disciplina é liberdade, método é expressão e um grupo de teatro é sinônimo da sociedade na qual acreditamos e gostaríamos de viver!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Verão italiano....

Desenhar palavras... Firenze



Porque a gente viaja? De verdade eu detesto fazer a famosa mala... O desconforto, o cansaço, um medinho... Vale assim tanto a pena?

Firenze vale a pena! A maravilha de uma bolsa sanduíche é que, no meu caso, vim para a Europa e estou perto de muitas cidades onde é possível ver obras inacreditáveis. Em Firenze elas estão por toda parte.

Mas aí vai um aviso aos leitores desse blog: para sair do seu local de estudos você tem que comunicar a Capes. Para vir para a Dinamarca fazer um curso tive que providenciar uma documentação que deu bastante trabalho.

Ver a Aurora de Michelangelo e andar pelas ruas do Renascimento italiano é uma aventura profunda que traz muitas reflexões. Michelangelo, Dante, Da Vinci, Botticelli, os Médici reunidos por amor à Arte e à Cultura e isso tudo antes de 1500. Sem computador!!! Esses incríveis gênios fizeram obras inimagináveis, conheciam muito sobre tudo.

Não dá prá ver toda Firenze, fiquei 3 dias, fiquei exausta de tanto bater perna e enfrentar fila para os museus, e ficar em pé olhando as obras.

Acabei me sentindo uma Vênus...As mulheres todas do renascimento eram de verdade: com barriga, coxa e pneuzinhos...Lindas mesmo...

Não é difícil se tornar uma Vênus com a cozinha toscana. Ribolita: uma sopa de verduras, o pão toscano não tem sal mas eles fazem as mais incríveis brusquettas...Que é pão com tomates frescos picadinhos com sal, azeite e orégano, a massa al mare...Hum...

Para chegar até aqui vim de trem http://www.treniditalia.com/. Não são os mais maravilhosos mas tem vários preços e vale a pena pesquisar.

Firenze se faz a pé. A estação de trem fica pertinho do centro histórico, tem muitos hostels para estudantes e comida boa e barata. Os museus custam bastante, em média 10 euros.

* Vitral da Biblioteca Laurenziana.

Firenze é uma cidade com clima de romântismo, acho que cinco dias seria o ideal para visitar as obras mais importantes...Mas de Firenze eu peguei um vôo para Copenhagem para o meu tão sonhado curso na Dinamarca...
E aqui estou! Ai heróis! Eu consegui!
 E como está sendo eu conto, mas vou precisar dividir em muitos posts...
E para quem deixar comentários por aqui sorteio um poster dos espetáculos do Odin!!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Desenhar palavras: A universidade, o verão, o vento e os livros.

Um post sobre o encontro com a beleza e a aprendizagem da saudade...

Como já falei aqui minha bolsa sanduíche é curta. Quatro meses incompletos, porque demorei prá conseguir a documentação prá vir.

Agora começo a me preparar para a volta embora ainda tenha 25 dias pela frente, 10 dos quais vou passar na Dinamarca fazendo um curso de teatro com o grupo Odin.

Agora, em Milão, a minha universidades está fechadas, de férias. Até mesmo a biblioteca. Aqui as estações delimitam a economia, a cultura e o comportamento das pessoas. Mesmo sabendo que seria um período atípico era o único que em que eu poderia vir.

O verão em Milão é muito quente, sem vento ou brisa. A cidade ficou completamente vazia. Muitos pernilongos e turistas.

Dei sorte! A dona da casa em que moro, uma poeta e crítica literária, tem uma casa na montanha, na Ligúria e uma na praia, na Sardegna.

E me convidou prá sair de Milão no verão. Comigo eu trouxe meu notebook que tem acesso à internet com uma “chiavetta” da TIM, não conheço se tem no Brasil, aqui funciona que é uma maravilha (custa pouco) e muitos livros.

Ler em língua estrangeira não é muito rápido, mas como estou em imersão é um excelente exercício. Os livros aqui não custam tanto quanto no Brasil. Existem boas livrarias e livros usados no final do ano letivo se encontram aos montes. Não sei ainda como vou fazer para levá-los, quando descobrir eu conto.

Fiz uma pesquisa de alguns autores para descobrir o que destes não tinha sido ainda publicado no Brasil e alguns que não têm nenhuma publicação.

Em pouco tempo e nem tanta grana não deu prá comprar tudo o que eu queria. Para ler então vou demorar uma vida. Faltam alguns ainda que encomendei e pego quando a livraria voltar a abrir...Os cadernos do Círculo de Eranos, a Amina Shah, Durand...

Mesmo insatisfeita, porque penso sempre no transporte, no tamanho da mala, nos euros a pagar por excesso... Acredito ter feito um boa bibliografia prá minha pesquisa. Assim como faço em São Paulo pesquisei preços e comprei em livrarias da universidade e pedi desconto já que sou estudante. Alguns livros eu ganhei do pessoal do grupo do Imaginário. Obrigada pessoal!



É porque aqui todo mundo publica, embora reclamem muito disso, têm uma cultura de editoras, de livros em circulação e de traduções muito grande. São rápidos, escrevem bem. Na minha opinião fazem uma escola de ensino médio meio The Wall (o filme do Pink Floyd) mas que é muito forte com ensino de grego, latim, filosofia e história da religião sem falar do básico e que valoriza pouco Arte e Educação Física. Qualquer semelhança terá sido mera coincidência...Deixa todo mundo meio louco por um tempo e sem muita identidade...

A graduação porém é muito diferente da nossa, exames orais e escritos ao final das disciplinas, conheci pouco mas dizem que saímos verde da universidade na graduação, concordo, mas tenho a impressão de que aqui saem mais do que verdes...Conheci pouco já que cheguei no final do ano letivo e assisti só a alguns exames orais.

Ando emocionada com o fato de poder ler livros que há tempos eu queria ler. Verdade que no doutorado todo mundo tem que ler pelo menos duas línguas, mas importar os livros custa sempre muito caro. Meu cartão de crédito, atualmente estourado e problemático e minha conta na Amazon.com que o digam!

A cultura italiana é de uma riqueza impressionante. Viver a possibilidade de conhecer a seus diferentes dialetos, comidas, festas, pessoas tem sido uma experiência riquíssima e à parte.

Na Sardegna, estou há 5 dias e parto amanhã, dia 06 de agosto, aniversário da Anabelle, minha irmã mais nova! (Meu norte, meu sul, meu leste, meu oeste, porto seguro, âncora do meu barquinho ao vento...)

Como vai ser passar o aniversário dela longe ainda não sei...


Comprei na lotérica por 5 euros um cartão prá ligar pro Brasil mais em conta. Ah e tem o skype ... Mas vai por aqui um brinde à minha irmã de sangue e de coração!

Aqui na Sardegna conheci as rochas batidas pelo vento, o mar cor de esmeralda, a comida dos pastores de cabras que habitam a Sardegna há milhares de anos.

O pão é maravilhoso. O queijo especial. As “seadas”, tipo de pastel recheado com queijo doce e limão servido com mel é uma delícia tão maravilhosa que eu gostaria de poder levar kilos na mala...

Faço meu "training" ( uma espécie de preparação corporal)  no telhado da casa, uma vila (casa) em Porto Rafael que tem um mirante para o mar. Danço com o vento, meu companheiro de infância, prá aguentar o tranco lá no curso do Odin.

Leio O Saggio de Bandiagara, oh Deuses, obrigada! Sobre a vida de Tierno Bokar para complementar o livro do meu orientador daqui, Paolo Mottana que cita o sufismo e para me nutrir do Bem! Tem também que se o Peter Brook encena o Mahabaratha fico conhecendo e leio, depois encena a vida de Tierno Bokar...Não vi mas fiquei curiosa...e...nem conto a maravilha que é o livro!

E escrevo minha tese, todo dia um pouquinho...

A partir de agora começa a contagem regressiva. Uma sensação estranha de pena de deixar essas maravilhas vai se insinuando...Faz parte da viagem: o regresso.

Ah, heróis! Quem souber como é me conta como foi porque o vento daqui da Sardegna está mexendo comigo! Me traz sonhos estranhos e muita inspiração!
A Cave nato... Os sobrenomes italianos traduzem o lugar ou a profissão, a confraria à qual a pessoa pertencia, o meu remete às cavernas, às rochas...Sou de origem vêneta, certo, mas as rochas da Sardegna falam comigo através do vento...


terça-feira, 27 de julho de 2010

Desenhar palavras: contando histórias em italiano!

Sou contadora de histórias como já deve ter dado para perceber...

Aqui estão as fotos da apresentação que fizemos da Caixa de Fuxico em Milão na festa " Il Battito della Terra" festa de solstício de verão da Associação Íris do Imaginário, criada pelo grupo de pesquisa de Pedagogia Immaginale (http://www.immaginale.it/) um instituto de pesquisa simbólica e do imaginário que promove encontros, cursos, palestras e atividades artísticas que tenham características "immaginale". O grupo criado pelo Prof. Paolo Mottana, é formado por Francesca Antonacci, Marina Barioglio, Fabio Botto, Giovanni Rizzo e Raul Citterio e faz parte da linha de pesquisa hermenêutica dentro da Facoltà Scienze della Formazione dell'Università degli Studi di Milano Bicocca (http://www.unimib.it)/
Na maior das encruzilhadas vim parar em um centro, em um coração teórico e poético da minha pesquisa. Juro que foi sem querer e que meu orientador (Marcos Ferreira Santos) quase me obrigou!!! Porque eu pensava em ir pro Sul da Itália, unir o útil ao agradável, estar próxima das tradições culturais, do mar...Mas esse tem sido dos mais férteis encontros no qual fui acolhida e com o qual me identifiquei muito.
Como já tinha falado aqui meu projeto previa contar histórias. Procurei contadores de histórias em Milão. No grupo de pesquisa Pedagogia Immaginale expliquei o que são os contadores de histórias, me diziam que se chamavam "'cantastorie" outros diziam "'racantastorie", ou ainda "racontastorie", não consegui ainda conhecer nenhum, estão no Sul da Itália me disseram. E em uma das primeiras reuniões estavam organizando a festa e procuravam uma apresentação artística e Paolo sugeriu que fosse eu. Hoje em dia eu sou assim: aceitei o convite na hora, expliquei como era prá todos na reunião e ainda pedi  prá trazer a Estela que estava na Suíça na casa de uma amiga.

Viemos de caso pensado, trouxemos os instrumentos e Estela tinha se preparado porque nessa história Marcos Coin e Marina Donati, da Caixa de Fuxico é que fazem a música. Procurei lugares para apresentações em Milão. No Ibrit, no Consulado Brasileiro e no Arci mas quando cheguei aqui a programação já estava fechada e recomeça só em setembro, depois das férias de verão daqui. Essa é uma característica muito forte da programação porque as estações definem o ritmo da vida das pessoas e são muito claros, ordeiros, muito organizados mesmo nesse sentido.
Mas para decidir qual história contar fiquei em dúvida, tinha uma responsabilidade grande, de, quem sabe, mostrar um lado desconhecido da cultura brasileira: os côcos, as cirandas e as histórias tradicionais, os contos populares do Brasil, explorando possibilidades de sair do esteriótipo do Brasil tipo exportação com samba e mulatas, Chico e Caetano, Vinícius e Toquinho. E ainda de "apresentar" a proposta de um contador de histórias contemporâneo!

Foi uma delícia apesar de difícil e do nervoso né! Em italiano o ritmo caiu muito e tive que usar todas as técnicas que nesse longo caminho aprendi com Regina Machado, com o grupo de estudos do Boca do Céu, com as oficinas e a experiência de contar histórias já há dez anos.
E ainda da observação de outros contadores de histórias, como o Sean Taylor que é um dos meus preferidos. Até pedi a ele uma história escocesa muito linda mas...
Contamos a história A Banda da Coroa, recolhida por Câmara Cascudo. Traduzi para o italiano. Adele Desideri me ajudou na tradução mas, mesmo assim, na hora me vinham as imagens. As palavras com verbos no passado remoto em italiano são pouco usadas, não eram corretas,  mas é preciso acolher o instante, focar na presença e permitir que as imagens ganhem vida através das palavras seja lá como for...
E conseguimos ainda fazer todo mundo dançar ciranda como parte da história, " o baile do casamento" e depois ainda fizemos Toc Patoc...
Talvez tenham sido apenas gentis e educados, os italianos normalmente são assim (exceto os que trabalham na Questura di Milano)  mas de verdade pareceu que foi um sucesso, que ficaram entusiasmados com a história feita com música ao vivo. Os mais intelectuais buscavam os símbolos, outros, que estão fazendo o curso de especialização em Pedagogia do Imaginário contavam da experiência de conseguir "ver" as imagens. E prá um contador de histórias que conta em outro língua essa é a recompensa de seu esforço!
E fazer os italianos dançarem é sempre difícil, têm uma cultura do corpo muito diferente da nossa mas como resistir às belas cirandas que Estela lindamente cantou e tocou?
E se a corda do violão que o Fábio Botto, meu colega doutorando, emprestou não tivesse quebrado estaríamos dançando até hoje!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Desenhar palavras... Eugênio Barba em Milão

Um post meio psi...

Na pesquisa que me levou ao doutorado, os processos de criação em teatro são portas para o Imaginário. Meu projeto para a bolsa sanduíche previa além da pesquisa sobre a Pedagogia do Imaginário de Paolo Mottana; contar histórias (depois conto como foi) e aprofundar minha relação com o trabalho do Odin.

Escrevi o projeto sem a certeza de que seria minimante possível fazer uma parte dele, mas eis que, como nas mais belas histórias, os deuses se manifestaram, os ventos foram favoráveis e eu soube, ainda no Brasil - viva a internet - , que o grupo estaria em Milão de 4 a 19 a junho com uma intensa programação.

Em abril, Barba esteve em São Paulo para uma visita à Escola São Paulo de Teatro, uma palestra curta no Sérgio Cardoso e uma demonstração de trabalho de Julia Varley. A fila de espera imensa pode demonstrar o quanto é querido e conhecido no Brasil. Pelas graças de Ivam Cabral, com quem trabalhei nos Sátyros, (quem o conhece sabe que é um amigo fiel e pessoa boníssima) estive no jantar que foi oferecido prá Julia e Eugenio. Achei que não conseguiria ir. Estela Carvalho e Marina Donati, minhas companheiras de Caixa de Fuxico, me levaram até a portaria do prédio prá dar uma força e garantir que eu não “fugiria”.

A porta do apartamento estava fechada, não achava a campainha...

Oh Deus! De novo não!

Agora então, conto uma história de um tempo muito antigo, em que eu era eu, mas não como sou hoje: estava na Itália há pouco tempo, onde tinha vindo encontrar um namorado, aventurar. Era 1992, tinha 22 anos, fazia teatro desde adolescente e estava há um ano no Ventoforte. Fui comprar ingresso prá um espetáculo da atriz Paola Borboni, conheci o produtor do evento, contei o que fazia e ele me disse que dali há uns dias Eugenio Barba estaria ali, estava montando grupos, não me lembro bem, mas Georgio, me disse que Eugenio certamente gostaria de me conhecer e agendou um encontro. No dia cheguei na hora, fiquei esperando na porta do teatro, estava com dor de barriga. Perguntei por eles na recepção e me disseram que era prá eu entrar que me esperavam lá dentro do teatro, as portas estavam fechadas, não dava prá ver o que tinha dentro...Respondi que esperaria lá fora, a moça insistiu, eu não entrei, esperei um pouco até que a dor de barriga aumentou e fui embora.

Quando liguei, Georgio me deu a seguinte bronca: Você deixou o Eugenio Barba esperando! Respondi que tinha esperado fora, ele ficou muito bravo e respondeu que Eugenio me esperava obviamente dentro!

Oportunidades perdidas não se recuperam?

A porta do apartamento estava fechada. Considerei desistir. Mas agora, sou outra e me adentro às situações mesmo que com medo. Então abri a porta e dei de cara com Eugênio Barba e zam...Cumprimentei em italiano, me apresentei falei da pesquisa, ele riu cumprimentou e continuou a conversar com quem estava ao seu lado.

Eu fui andando pelo apartamento, cheguei ao Fábio Cintra, (aff que sorte, o Fábio por aqui...) Rodolfo brincou comigo... (talvez achasse que eu fosse penetra...)em meio aos professores e diretores de teatro, atores e atrizes que conhecemos ...Cibele Forjaz, Maria Thaís, e os queridos Raul Teixeira, Fábio Penna e a bela (como é bela!) Cléo de Páris...Lá estava eu. Tão nervosa, me queimavam as orelhas! Conversei um tanto com o Fábio Cintra, querido professor da disciplina da música para a cena.

Ivam me achou lá no meio e fez as apresentações. (Salva enfim!) Falei com Julia Varley, porque já eu já tinha visto o espetáculo O Sonho de Andersen, tinha feito o curso do Lume, lido o Burnier e conversamos um pouco e ela então me deu o e-mail da pessoa certa para que eu pudesse me agendar para a temporada de Milão.

É heróis, conseguir informação não depende só da internet!

Em Milão assisti às demonstrações de trabalho de Julia Varley, Roberta Carreri, de todo o grupo Odin, à palestra de Eugênio, o seu Lectus Magistrales, o espetáculo Judith de Roberta Carreri.

Fiz dois, dos três dias de curso, com Augusto Omolu e Jan Ferslev, porque no terceiro... Dor de barriga!!Faz parte da adaptação à um mundo diferente.

E fui ao lançamento do livro de Tony d’Urso na “Libreria del mondo offeso” e não vi os espetáculos do final porque tinha um curso de Pedagogia do Imaginário, com meu orientador daqui, em Verbania no Lago Maggiore, depois conto como foi.

Em todos esses encontros aproveitei para tirar minhas muitas e antigas dúvidas, o que fazia Julia Varley sorrir prá mim. Na palestra perguntei à Eugenio a minha maior e sintética delas, a que move minha pesquisa há 15 anos; como se faz eu sei, conheço o training: Mas, como as imagens geradas pela improvisação que geram material que são depois selecionadas por ele podem ser colocadas em uma forma teatral que possui uma linguagem arquetípica, que traz ressonâncias de experiências ancestrais, enfim serem tão universais ?

Resposta e pergunta foram muito ricas: Eugenio respondeu que hoje em dia pensa nisso e dá o nome de “linguagem dos anjos” ao trabalho que faz com os atores, faz com que cheguem a essa linguagem simbólica.

Falei com ele depois, me reconheceu da casa do Ivam.

Vai me ver de novo, com minha batelada de perguntas, porque fui selecionada e vou prá Dinamarca fazer a Odinweek(www.odintheatret.dk) em agosto.

E para fazer o curso fora do meu local de estudos tive que pedir autorização para a Capes com carta do meu orientador daqui, do orientador do Brasil, uma justificativa e anuência da pró-reitoria!

Prá mim um mundo de sonhos realizados.
* Igreja de San Maurizio. Milão.



Para saber mais:



Eugenio Barba é italiano, diretor do grupo de Teatro Odin. Figura central do teatro mundial. Autor de vários livros, alguns deles já publicados no Brasil : Além das Ilhas Flutuantes (1991), Canoa de Papel (1994), Dicionário de Antropologia Teatral em co-autoria com Nicola Savarese (1995), Terra de cinzas e diamantes (2006) e em italiano Prediche dal giardino (2010), Bruciare la casa, origini di um regista (2000), Teatro Solitudine, Mestiere e Rivolta (2000) dentre outros.



Fundador da ISTA (International School of Theatre Antropology) uma espécie de universidade itinerante que através da prática investigativa estuda as bases do trabalho do ator a partir de um processo comparativo com vários estilos de interpretação do teatro oriental e ocidental.



O Odin, nos seus processos de investigação criou o “Baratto Culturale”, uma troca de experiências através de uma montagem com uma comunidade, um diálogo entre realidades diferentes em que a barreira da língua é superada pelo movimento corporal, pela música e pela festa.



Eugenio Barba foi discípulo de Jerzy Grotowski e fundou o Odin em 1964. Mantém uma intensa atividade de criação de espetáculos e de ensino de teatro. Sua proposta de linguagem se baseia em pesquisas de um treinamento técnico corporal a partir de elementos de diversas culturas tradicionais, desse treinamento desenvolve processos de improvisação com temas e recolhe imagens originais para criação de espetáculos que são ricos em imagens criadas com o corpo, com a voz, a música, com uso de bonecos e outros elementos cênicos que geram imagens de simbolismo universal.



O curso OdinWeek acontecerá de 12 a 21 de agosto de 2010, em Holstelbro na Dinamarca, sede do grupo. A programação do curso inclui encontro com o diretor do grupo: Eugênio Barba, treinamento técnico com alguns dos integrantes do Odin: Roberta Carreri, Augusto Omolu e Jan Ferslev, espetáculos e demonstrações de trabalho com todo o grupo Odin, acesso à biblioteca e aos vídeos e um encontro com o administrador do Odin Teathet.



Eugenio Barba escreveu muitos livros, alguns publicados no Brasil desde 1991, os relatos sobre o treinamento técnico do ator descritos nos livros foram fonte de informação para dar continuidade aos processos de criação que iniciei junto ao grupo Ventoforte, dar forma e aprofundar minha prática teatral.



Essa prática foi se constituindo através do tempo, fundamenta e estrutura minha proposta de formação para artistas e educadores através de uma Pedagogia do Imaginário e é base para os processos de criação junto ao grupo Caixa de Fuxico criado por mim em 1999. Os processos de criação em teatro são a matéria prima para a minha proposta de Pedagogia do Imaginário, que aprofundei aqui no estágio no exterior na Universidade de Bicocca de Milão com o Prof. Paolo Mottana.



O grupo Odin de teatro visto como um fenômeno social e cultural existe há 45 anos, sua influência social e cultural é muito grande, através da palavra escrita e também por isso tem grande influência no meio teatral. O grupo possui uma estrutura que permite o ensino, a troca de experiências, o registro por escrito, e temporadas ao redor do mundo que incluem demonstrações de seus processos de trabalho que possibilitam acesso à linguagem teatral desenvolvida pelo grupo, trocas e aprendizagem com diferentes culturas.



Conhecer sua sede, financiada pela cidade de Holstelbro, sua organização de proposta de ensino de teatro, é a importante possibilidade de conhecer iniciativas de políticas públicas voltadas para Arte e para a Cultura e vai ampliar as minhas perspectivas em relação à manutenção de patrimônio cultural imaterial.





Bibliografia de referência



BARBA, E. Além das Ilhas Flutuantes. São Paulo: Hucitec, 1991.



BARBA, E. Canoa de Papel. São Paulo: Hucitec, 1994.



BARBA, E. Terra de Cinzas de Diamantes. São Paulo: Perspectiva, 2006.



BARBA, E. Teatro Solitudine, Mestiere e Rivolta. Milão: Ubulibri, 2000.



BARBA, E. Bruciare la casa. Origine de um regista. Milão: Ubulibri, 2009.



BARBA, E. Prediche dal giardino. Mondaino :L’arboreto Edizioni, 2010.



SAVARESE, N; BRUNETTO, C. Training! Come l’attore libera se stesso.

Un’antologia di classici. Roma: Dino Audino Editore, 2004.



BARBA, E ; SAVARESE, N. A Arte secreta do ator. Dicionário

de Antropologia teatral. Campinas: Editora Hucitec e Editora da Unicamp,

1995.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

appuntamenti

appuntamenti

Desenhar palavras...Vivendo um Dostoiéweski qualquer


Pessoas e suas comidas. Pessoas e seu modo de viver e pensar. Pessoas e suas escolhas. Pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas. Aqui em Milão, me surpreendo com as semelhanças da minha pesquisa com a do grupo de Imaginário daqui e vice versa, com a intimidade que tenho com o trabalho do Odin, e com os duplos assim como no filme "A Dupla Vida de Veronique" do grande mestre Kieslowiski.

A globalização é um assunto importante. Identidade: uma questão a ser discutida. A China impera, não só na Via Paolo Sarpi; encontrar um produto italiano a bom preço é difícil, os italianos compram “made in china” sem muitos questionamentos.

E assim vamos às porpetas que Giuliana me ensinou a fazer.

Ah! Além disso a bela Giuliana me levou ao mercato (a feira livre), onde a China não impera e sim países do leste europeu menos abastados.  Ela me conta como é sua região, Sondrio, onde as pessoas colhem os cogumelos das montanhas, uma atividade muito perigosa. Os “mercati” estão em todos os bairros (em italiano: zona) e ali se pode comprar frutas e verduras frescas e tudo o mais: sapatos, roupas, bijuterias e etc. Preços muito convidativos.

Para a porpeta:

Carne moída, queijo parmesão ralado, ovo, cheiro-verde, que nesse dia não tínhamos, mistura tudo depois passa na farinha de rosca (pane grattugiato) e deixa cozinhar com tampa no óleo de oliva, pode acrescentar tomatinhos cereja, orégano e sal em fogo muito baixo.


Aqui na Itália, apesar da fama as pessoas são tímidas. A não ser pelo futebol...Que levou inclusive certa pessoa a ser presidente e agora todos cozinham como as porpetas em fogo baixo e lentamente já que o cara é dono de todos os meios de comunicação e os outros meios estão...Tímidos?

Nem só de porpeta porém somos feitos... Ah, o teatro e seu poder de despertar da morte as almas mais adormecidas.

Fui ver “Judith” espetáculo da atriz Roberta Carreri com direção de Eugenio Barba no Teatro Elfo Puccini (www.elfo.org) na Via Corso Buenos Aires, 33 (Metrô Lima, linha vermelha).
 Milão tem muitos teatros e fazem temporadas curtas. A organização dos teatros é muito diferente da nossa e depois explico porquê.

O espetáculo é deslumbrante...Eu disse deslumbrante! Retumbante! Simples como são simples os grandes trabalhos. Uma grande atriz, um trabalho fortíssimo com as imagens que o texto original gerou, e os elementos teatrais desenvolvidos com beleza, com força e identidade, originalidade. As imagens de vida e morte criadas com o corpo, os opostos de amor, dor e prazer.

Queria tê-la aplaudido em pé, mas a platéia não se levantou e fiquei sem graça. Sabe como é, são códigos diferentes...Mas que nada...Veem pouco teatro de pesquisa me explicou alguém. E essa realmente não entendi, ou a conclusão a que chego é que Milão é uma pequena província de gente adormecida e autômata que se veste sempre bem, freqüenta aperitivos e futebol sem pensar muito.

Bom...Eu poderia te me levantado e teria levantado a platéia mas, são já tantas as ocasiões em que teria sido eu que...Ah...Uma discussão sobre ser mulher na Itália está na minha lista de posts: Andrea "causando" fora de casa. Saibam que meu nome aqui, é nome de homem, e que só há pouco tempo mulheres, ainda meninas, tem esse nome. Fiz uma amiga de 5 anos que se chama Giulia Andrea...

Os códigos corporais aqui são diferentes. São dois beijinhos para cumprimentar e começa da direita, coisa de louco!!! E só com quem se tem um pouco de proximidade, se não, aquele aperto de mão, que não dou nem no meu cardiologista, que vejo duas vezes no ano. Abraço só prá quem é super amigo, brother mesmo. Ou se encontrar o pessoal de teatro, teatro de verdade...Os de teatro mesmo! Roberta Carreri me abraçou porque a aplaudi depois, só prá ela, em pé!

Se um homem acender seu cigarro, ajudar a vestir o casaco antes que você pense nisso, abrir a porta do carro, te der passagem e abrir a porta para você passar, não pense que está arrasando! É comum mesmo, tipo assim regra de boa educação! Se te tratar com casca e tudo, também é normal, afinal tem uma confusão medonha aqui sobre igualdade de direitos. Por via das dúvidas, eu tenho evitado todo tipo de contato mais assim "à brasileira", até que o álcool nos iguale a todos em espontaneidade!




Evoé Baco! Comunicação garantida ou sua Heineken de volta!